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  Binóculo Algum dia, anos atrás,  minha mãe pediu para fazer uma fotografia de binóculo.  Ficamos nós três: meu irmão mais velho, eu no meio, e meu irmão mais novo.  No meio dos meus pés uma flor se colocou.  Depois, anos muitos, mirei aquele binóculo e pensei: eis aqui a frase, as palavras e nós.  Pus-me a escrever!
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  A sereia  Na noite seguinte, Dinãrzãd disse à irmã:  “Por Deus, maninha, se você estiver dormindo, conte-nos uma de suas belas historinhas  para que atravessemos o serão desta noite.”                                                                                                                               Sahrãzãd Como se fosse um livro. No corpo,...
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  Sinfonia do Destino A esperança de liberdade é o que nos move nestas instâncias longínquas. A esperança de voltar  á África, uma esperança vã, comovente. O medo, a violência e as suspeitas de um e de outro retumbam nas almas dos negros e mestiços como eu, Elóa . A fé no inefável. Dia de Nossa Senhora do Rosário Lenita fazia cafuné em Osvaldo, Adelina cochichava no ouvido de Maria dos Anjos fuxico dos casais. Na rua as mulheres mais velhas vendiam chás e frutas.   Enquanto uns jogavam capoeira, outros se deitavam com as moças que iriam para a escolha dos senhores no fim da tarde do dia seguinte. Os rebeldes   espiavam o movimento dos coronéis e seus empregados.Tramavam. A senzala, no fim de semana, virava por algumas horas num campo livre em que as mulheres e os homens a noite requebravam as cadeiras para esquecer que seriam vendidos, a única certeza numa luta trágica entre a expressão de uma força subjugadora e a resistência dolorosa. Prisões subterr...
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  Desterro  Esta é uma história antiga. A história de Eloá que gostava das poesias de Cruz e Souza, poeta negro como eu. A história de Eloá que usou os versos do poeta dizendo serem seus para seduzir Rogério. Floreios, digamos estéticos. O Cruz soube disso e naquele jeito dele deu permissão ás minhas invenções para falar de amor. Ao me entregar um poema ele disse: Filosofia da sobrevivência. Isso aconteceu em Nossa Senhora do Desterro, capital da província de Santa Catarina. Eu era moça. Agora, veja bem: estou aqui com as mãos cheias de nódoas, os ossos aparecendo. Falange por falange, os metacarpos, a pele enrugada, palma da mão calosa, o esforço para registrar essas memórias. O Rogério foi embora com outra e cá estou agradecemos a Deus e a Virgem Maria por me ajudar a transpor as dificuldades na escrita, nas mal traçadas linhas neste caderno. Naqueles tempos a tuberculose era a doença do século. A noite um mal. O vírus espreitava os poetas e os boêmios que gostavam de co...
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   Tem sol lá fora?   Tem sol lá fora? Esta foi à pergunta que a vendedora  fez antes de passar as minhas compras.   Eu disse que sim. Ela sorriu. Abaixou os olhos para o código dos produtos e começou a passar no decodificador. Sorriu novamente quando viu o Cd do U2. Disse que não saberia dizer de onde viera esse gosto musical que tinha.   Fiquei calada. Imaginei.  Admirava seus olhos castanhos  no jeito mignon fazendo o trabalho com precisão.  Enquanto passava as compras falou de uma desconhecida que encontrou cedo em frente ao prédio aonde mora. Ela estava comendo os restos que encontrara no lixo. Manoel Bandeira passou no corredor de minha memória.  Foi por isso que ela perguntou se lá fora havia sol.  Dentro dela era um dia escuro e triste.
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  O mago Jorge Luis Borges Mara Paulina Wolff de Arruda “Meu relato será fiel à realidade ou, em todo caso, a minha lembrança pessoal da realidade, o que é a mesma coisa”. Assim começa um dos contos do encantador argentino    que nos primeiros anos de sua vida aprendeu a língua inglesa pela declamação de poesia feita por seu pai. Amante das línguas antigas aprendeu com a mãe a traduzir lendas   e contos. Jorge Luis Borges, escritor nasceu em 1899. Morou na Espanha e em Genebra  morreu em 1986.   Diante do mundo contemporâneo onde à tecnologia nos coloca no mundo global   Jorge Luis Borges inaugurou o termo “Cidadão do mundo”. Na inventividade de um mundo fantástico Borges recorreu ao espelho, ao labirinto, ao tigre, a invenção de espaços imaginários. Borges expressou com elaborada certeza, que a existência de cada um de nós consiste em constante fluir dos tempos presentes, e em cada um desses presentes se aloja nosso passado e está prefigurad...
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  Conto desconcertante   1- Era uma vez uma menina que não tinha mãos. Também os pés lhe faltavam. Era uma criatura que apesar dos pesares trazia uma alegria no olhar. Frequentava a escola. Ria. Chorava. Conversava com todos e até pensava em namorar. Pintava lindos quadros. Quando estava fora de sua cadeira de rodas se arrastava prazerosamente pelo chão. Ninguém entendia aquela vida metamorfoseada.