Tecendo
a manhã no cinema do Brasil
Mara
Paulina Wolff de Arruda
Um
galo sozinho não tece uma manhã:
Ele
precisará sempre de outros galos.
De
um que apanhe esse grito que ele
E
o lance a outro;
O cinema no Brasil desde
Glauber Rocha com Deus e o Diabo na Terra do Sol, Carlota Joaquina de Carla
Camuratti, Central do Brasil de Walter Salles e Cidade de Deus de Fernando
Meirelles é cada vez mais rico
em relatos que refletem a história, a sociedade, a vida urbana e região
brasileira.
Na sexta-feira, na
companhia de Anne, minha filha, assisti O Agente Secreto. Um filme
surpreendente, filmado de forma não linear, conta uma parte da história do país. Década 1970. Fora do eixo Rio-São Paulo a trama acontece em Recife, nordeste brasileiro. Outros sentidos, outra linguagem, outra perspectiva de um tempo escuro no país.
e
de outros galos
que
com muitos outros galos se cruzem
os
fios do sol de seus gritos de galo,
para
que a manhã, desde uma teia tênue,
se
vá tecendo, entre todos os galos.
Walter Salles mostrou
o desaparecimento de um militante comunista, a resiliência de Eunice Paiva,
numa luta pela verdade e direitos humanos no filme Ainda Estamos Aqui. Repercussão no mundo
inteiro. O Agente Secreto vai nesse mesmo fluxo de sucesso.
E, se incorporado em tela, entre todos,
Se erguendo tenda, onde entrem todos,
Então, o engenheiro cineasta Kleber Mendonça Filho, nascido no Recife, tal qual o poeta João Cabral de Melo Neto, autor do poema Tecendo a manhã, arquitetou O Agente Secreto contemplando personagens enigmáticos, como por exemplo Dona Sebastiana e Armando, numa narrativa policial, dramática e de suspense. Linguagem antidiscursiva.
O Agente Secreto mostra um dos inúmeros viés da
história brasileira, período duro, poeirento, de perseguição política,
censura e dor vivida por personagens reais que tecem outras manhãs, na cultura do país.
Se entretendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
Que, tecido, se eleva por si: luz balão.
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