Sonhos de Trem e outros não menos importante

(Mara Paulina Wolff de Arruda)





 

O filme Sonhos de Trem dirigido por Clint Bentley com fotografia de Adolpho Veloso ganhador do prêmio Independent Spirit Awards, aborda a vida do homem invisível, trabalhador braçal nos EUA. A complexa relação entre homem e a natureza, a vida sem sentido, perdas e contraste entre silêncio e preparação para o progresso que o trem atravessou e, ainda hoje, atravessa todos nós.

No oeste catarinense, Brasil, Ely  Bellani foi uma das primeiras pesquisadoras a investigar a forma da derrubada das árvores em prol do desenvolvimento urbano e do progresso. Ela tratou deste assunto na sua tese de Mestrado, UFSC, 1996.

Pesquisou a vida do próprio pai,  balseiro na região de Chapecó. Como os balseiros derrubavam a mata, arrastavam os troncos das árvores de modo braçal e, depois em carroções de tração animal transportavam por longas distâncias, nas décadas de 1940 a 1960, aproximadamente. Período de grande fluxo da colonização no oeste catarinense.

Naquela época a derrubada das árvores era uma possibilidade de negócio diante do mundo esquecido e inóspito que viviam os imigrantes italianos e alemães. Um tempo histórico em que índios kaingangs e guarani, bem como caboclos, habitavam essa mesma floresta.  

Quantos índios foram extintos para saciar essa fome de progresso conquistada a qualquer custo?

Após a derrubadas das árvores, os troncos eram serrados, classificados e construídas balsas com cem metros de comprimento. Os feixes após amarrados eram deitados no fluxo do rio Uruguai em direção à São Borja, Argentina. De lá essas madeiras de primeira linha eram exportadas para a Europa.

Um grupo de vinte e cinco homens  navegavam em cima das balsas através do rio Uruguai, conduzindo em épocas de enchente a madeira numa verdadeira aventura náutica. Viajando dia e noite,  durante cinco a sete dias no rio, enfrentando tempestades, ventanias, obstáculos entre ilhas, corredeiras e saltos numa empreitada radical onde homens morriam, caiam no rio, se perdiam. Eram muitos desafios enfrentados até chegar ao destino: a Argentina.

Ao assistir o filme Sonhos de Trem lembrei desta pesquisa da Professora Ely Bellani que comentou um dia numa de suas palestras: o quanto a escolarização fez com os homens e mulheres saíssem dessa natureza rude, ingênua e ignorante, no sentido de não ter outra opção de trabalho, além de usar a força física como instrumento para sobreviver as intempéries da vida.


*Para quem quiser assistir o filme Sonhos de Trem ele está na Netflix. 

*A pesquisa da Professora Ely Bellani tem diversos artigos publicados em revistas de História da UFSC. E vídeos no Youtube.

 

 

 

  


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