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(Mara Paulina Wolff de Arruda)


(Aquarela de Adélia da Silva)

Sobre as pedras nas Cataratas do Iguaçu Ludi II corre atrás de um besouro, o último da espécie dos coleópteros.

Um pouco mais à esquerda, em meio as árvores queimadas, pisando na terra quente a cientista Adélia da Silva aperta o controle remoto trazendo  de volta o cachorrinho Ludi II. Afaga sua cabeça de alumínio. Vê se está tudo ok com sua engrenagem e dá o comando para retornar ao laboratório.

Adélia, última cientista do planeta, caminhava enxugando o suor do rosto, exausta.  A companhia de Ludi II,  robô inspirado no seu cachorrinho real, seguia ao seu lado ajudando-a nas rampas, tirando galhos que travavam a passagem deles pelo caminho, acuando quando percebia algo diferente enquanto ela gravava no celular relatos da beleza das Cataratas do Iguaçu.

O cachorrinho Ludi I foi seu pet mais querido. Com ele  conversava sobre  menopausa, velhice,  não ter filhos, ser cientista no ponto caótico da civilização.  Ludi I, no fim do ano, não resistiu. Ela precisou carrega-lo num carrinho  até o último dia da vida dele.

Naquele mês, após a morte de Ludi I, suas forças diminuíram, o cansaço aumentou, os colegas de profissão mudaram de endereço. Ela soube que sua família havia morrido na cidade em que nasceu. A catástrofe  ambiental repercutia em tudo, era assustador e ela não queria -não iria- morrer sozinha. Pensando nessas coisas criou Ludi II.

Adélia trabalhou dias seguidos no protótipo de Ludi II, dormiu pouco, pesquisou teorias e teóricos, fez  vídeochamadas para o pesquisador seu amigo chines Win X.H.  que sugeriu  usasse material reciclável de uma fábrica que estava a poucos metros do laboratório. 

Adélia seguiu as orientações. Pôs-se a juntar peças, medir placas, sensores, material que pudesse dar “vida” ao Ludi II.  Anexou uma câmera no centro do corpo dele.  E, percorrendo  quilómetros, no primeiro teste  ficou feliz por ele corresponder aos seus comandos. Satisfeita com a criação conseguiu dormir dois dias. 

Na semana seguinte pensou que era preciso determinar o que Ludi II iria fazer quando ela não tivesse mais autonomia. Era preciso se organizar. Com os dias mais curtos e a mudança de estação pôs-se a programar:  Ludi II deveria dar-lhe os remédios na hora certa, tirar o lixo de dentro da casa, protege-la dos raios  solares, filtrar a água, ser atento a qual quer espécie que pudesse fazer-lhe mal. E, por fim, ser guardião de uma caixa de madeira em que continha envelopes, uma pequena fortuna, que ele deveria proteger  para plantar na próxima estação.

 





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