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  Mário de Andrade, um   ser   trezentos e cinquenta (Mara Paulina Wolff de Arruda)   Mário Raul de Moraes Andrade -1893-1945- tem como registros múltiplas formas de linguagem, próprio das situações socioculturais   variáveis em vigoroso processo de transformação. A defesa da fala nacional e expressões artísticas circulavam num ambiente comprometido com a identidade brasileira.   Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta, As sensações renascem de si mesmas sem repouso, Oh espelhos, Oh! Pirineus! Oh caiçaras! Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!   Poeta, contista, músico, pesquisador do folclore nacional, da linguagem, polígrafo, trabalhador incansável da arte e cultura; talvez tenha sido o primeiro arte-educador no Brasil. Antes do nascimento da internet Mário de Andrade foi um comunicador de sua imagem e do seu trabalho cultural. Foi um dos mentores da Semana de Arte Moderna de 1922, uma semana de apresentações de poe...
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  Yasmin (Mara Paulina Wolff de Arruda) Um copo de plástico  empurrado pelo vento. O som do plástico batendo no asfalto leva a uma pessoa que vinha em seguida e que tinha chutado o copo. Ela segurava um saco preto pesado. Comia um sanduiche. Estatura alta. O ombro meio de lado por causa do peso que carregava. Pernas finas de saracura cobertas por uma skinny rosa. Camisa amarrada na cintura. Cabelos tingidos amarelados e presos por uma tiara. Olhar vazio no longe de si.  O sofrimento   de Yasmin.  
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  Música para o vento (Mara Paulina Wolff de Arruda) O jardim exibia as azaleias em plena floração. Bichos domésticos feitos de gesso guardavam a casa e, um leão  eram vistos de longe. Recolhidos nos dias de chuva. Nos dias de sol refletiam-se nos vidros dos carros que passavam. Edson, um guerreiro. Ela, a sua mãe. Chegaram num dia chuvoso num navio cargueiro após a tragédia daquele dia fatídico de 1957; vindos de um país do oriente. Aos poucos foram se instalando na cidade. No cedo do dia agradeciam o recomeço. Ela preparava Edson, vestia-se e apressada   empurrava a cadeira de rodas até o ponto de ônibus onde lembrando uma música de Bob Dylan “4th Time Around” ele segurava sua gaitinha de boca. Na correria do dia-a-dia Ela perdeu os documentos. Dias e longas noites de preocupação. O tempo escorreu pelas mãos dela, como a areia de seu país distante. Na sua língua-mãe contou histórias, cantou poemas; camelos passavam no sol poente Uma montanha sabendo do ocorrid...
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  Sinal verde Mara Paulina Wolff de Arruda Lilia vende balas no semáforo. Todo dia, acorda cedo, ajeita o boné sobre os cabelos, a bolsa cheia de diferentes tipos de balas atravessada no corpo. Se apressa para chegar cedo ao trabalho.  Assim que a sinaleira abre o sinal verde ela espera os carros pararem e oferece aos motoristas pacotinhos de bala preparados por ela e sua mãe. Tem dias que vende bem; outros nem tanto. Lilia não se ajustou na escola. Sofreu bulling, preconceitos. Não gostava das aulas. No final do mês separa uma parte do dinheiro para pagar as contas, outra parte para as compras do mês no supermercado.   Nem sempre sobra algum.  Quando há   lucro Lilia vai até o sebo para comprar outro livro.
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  FIM DO MUNDO Mara Paulina Wolff de Arruda Fluxo Imigrantes se deslocam pelos continentes Aquiles saiu na madrugada para recolher papelão, garrafas pet e latinhas. Nina organizava o material reciclável   acumulado no porão de casa   Eles iriam vender todo o material para comprar uma roupa bonita No porão ela descobrira uma vertente d’água onde o bebê brincava O colapso entrando na porta  O fogo se alastrando A grama seca A geladeira vazia Nina se preparava para a festa do fim do mundo   Os três juntos nessa.
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   Coração por um fio (Mara Paulina Arruda) Cheguei na casa do Senhor Manoel da Costa. Muito conhecido na região por ser escritor. Escreveu poemas. Trovas, contos e se arriscou num romancezinho que conta da paixão  por Lucélia.  Lucélia morreu em Paris. Ela era pintora. Viajava com  marido de férias e teve um mal súbito. Suas últimas palavras foram “ Sempre lembrarei do meu primeiro amor”   As rachaduras nas paredes, o teto pronto para desabar, os vidros das janelas quebrados. Na cozinha um fogão enferrujado. O quintal totalmente abandonado, o mato beirando na escadinha que dava na porta. Essa era a casa em que Manoel e Lucélia se amaram. O setor imobiliário de olho nesse pequeno monumento ofereceu para mim. Quando era criança estive no colo dela. O corretor de imóveis se surpreendeu ao ouvir as minhas lembranças. Lembro da casa, do dia do adeus e do fim dos dias quentes. Era inverno quando eles se separaram. A neve, naquele fim de tarde tinha deixado branc...
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  POSEIDON Mara Paulina Arruda Quem vê o mar assim tranquilo nem imagina a fúria que ele contém no submerso de suas entranhas. Poseidon está lá só observando o mal que os homens cometem às suas águas. Quando ele se irrita até as montanhas ficam com medo e lembram de um quadro de Willian Turner. O céu cheio de nuvens, o vento soprando as ondas pra tudo quanto é lado, o barco incontrolável e os homens desesperados tentando de todos os modos navegar. O meteorologista e o ambientalista bem avisaram, mas os comerciantes fizeram ouvido de mercador. E dê-lhe jogar tudo quanto é coisa nas águas.   E dê-lhe interferir na natureza Não vi seus olhos. Sonhei com suas mãos, vi os cabelos encaracolados no meio das ondas e o seu tridente.