Coração por um fio (Mara Paulina Arruda) Cheguei na casa do Senhor Manoel da Costa. Muito conhecido na região por ser escritor. Escreveu poemas. Trovas, contos e se arriscou num romancezinho que conta da paixão por Lucélia. Lucélia morreu em Paris. Ela era pintora. Viajava com marido de férias e teve um mal súbito. Suas últimas palavras foram “ Sempre lembrarei do meu primeiro amor” As rachaduras nas paredes, o teto pronto para desabar, os vidros das janelas quebrados. Na cozinha um fogão enferrujado. O quintal totalmente abandonado, o mato beirando na escadinha que dava na porta. Essa era a casa em que Manoel e Lucélia se amaram. O setor imobiliário de olho nesse pequeno monumento ofereceu para mim. Quando era criança estive no colo dela. O corretor de imóveis se surpreendeu ao ouvir as minhas lembranças. Lembro da casa, do dia do adeus e do fim dos dias quentes. Era inverno quando eles se separaram. A neve, naquele fim de tarde tinha deixado branc...
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POSEIDON Mara Paulina Arruda Quem vê o mar assim tranquilo nem imagina a fúria que ele contém no submerso de suas entranhas. Poseidon está lá só observando o mal que os homens cometem às suas águas. Quando ele se irrita até as montanhas ficam com medo e lembram de um quadro de Willian Turner. O céu cheio de nuvens, o vento soprando as ondas pra tudo quanto é lado, o barco incontrolável e os homens desesperados tentando de todos os modos navegar. O meteorologista e o ambientalista bem avisaram, mas os comerciantes fizeram ouvido de mercador. E dê-lhe jogar tudo quanto é coisa nas águas. E dê-lhe interferir na natureza Não vi seus olhos. Sonhei com suas mãos, vi os cabelos encaracolados no meio das ondas e o seu tridente.
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Tenho medo das coisas do céu Mara Paulina Arruda "Se miente más de la cuenta por falta de fantasía también la verdad se inventa" (Antonio Machado) Fiquei sem jeito de perguntar quantos da família dela haviam morrido. Ela, estava ali, com seus cabelos brancos olhando o nascer dos cabelos brancos de Juliete. Falava dos exercícios que precisava fazer para fortalecer o corpo, lastimava a fraqueza dos músculos. Imersas num tempo passado, Antônia e Juliete, andavam por instâncias onde habitavam cavalos, carroças, juventude e lareiras. Máquinas de gorjeios é uma pintura de Paul Klee. A real vida de cada um passa independente do querer. O chumbo do corpo enrolado num lençol fininho branco. Cor do pesar. Chuva fina. Insistente. O famélico tempo fazendo ronda no fio que resta da história.
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Anotações Mara Paulina Arruda “Y fue por este rio de sueñera y barro Que las proas vinieron a fundarme la pátria” J.B.Borges Antes, na história oral. Hoje, via redes sociais, as palavras tem pernas. Caminham de boca em boca, frase a frase, de livro em livro, de país em país. Silvina Ocampo era amiga de Jorge Luis Borges. Começou a publicar em 1937. Uma das precursoras da literatura feminina da Argentina. Leio Maria Gainza, O Nervo Óptico. Na expressão literária desta escritora encontramos parte da história da arte, algumas rememorações históricas e pessoais, citações artísticas, características. A estética dela é contar da nossa condição humana. “Corram os olhos por uma galeria de arte argentina. Primeiro distraidamente, sem focar em nada. Quando sentirem um chacoalhão, como um carro que atropela um preá na rodovia, parem: é bastante provável que estejam diante de um Victorica.” Os personagens não estão sol...
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Eu fico pensando no Abaporu Mara Paulina Arruda O Abaporu de Tarsila do Amaral, um ser antropofágico, no escaldante sol do nordeste passou por mim, deu uma rabanada e sumiu. Com a cara preguiçosa, pôs a cabeça na parede da casa de barro que ele morava. Ouviu. Ouviu. Ouviu. Nada ouviu. Deu uma risadinha e disse que o som da água, naquela tarde estava longe. Mas era certo que dali, daquela parede, ele ouvia a água chegando. Por meio de mensagens telepáticas vindas das nuvens e dos que convivem com elas ele podia saber quando elas escorriam no meio dos cômodos da singela casa dele. Sendo índio ele precisava da água para ajudar a enterrar o avô que ele pôs de cócoras numa urna funerária. Por isso não pode falar comigo com calma. Por isso. Era urgente umedecer a pele enrugada do avô senão iria secar e os espíritos precisam de umidade e de frescor. Toda a aldeia estava a procura de um olho d’água. Já dizia minha mãe: não podemos nos entregar ...
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Arte, assunto e instrumento Mara Paulina Arruda Façamos a mesma pergunta há anos formulada: Para que serve a arte? Artistas nos diferentes pontos do globo terrestre fazem desde tempos imemoráveis desenhos, pinturas, esculturas, objetos musicais, escrevem e se expressam através do teatro. No mundo atual temos o desdobramento da arte que vai da forma artesanal á diferentes técnicas tecnológicas. Penso que, ninguém, em sã consciência, deixa de se espantar ou encantar por alguma forma de arte. A arte incentiva, nos torna criativo, cria possibilidades e consola diante das agruras da vida . Porem, algumas vezes o ser humano resolve se retratar contra a arte ou, pior, usa-la em benefício próprio. Nessa segunda semana de outubro, duas ativistas do grupo inglês Just Stop Oil jogaram um pacote de sopa de tomate em ‘Girassóis” um dos principais quadros que Vincent Van Gogh pintou em 1888. A ação, feita pelo grupo teve como objetivo chamar a atenção ...
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Herdeiros de Cervantes Mara Paulina Arruda “Quienes no comparten un poco de sus casas com los demás, rara vez reciben visitas” Hilario J.Rodríguez O Brasil é um país multiétnico. Tem no seu território pessoas descendentes de todas as nações. Muito antes da invenção das redes sociais o Brasil acolhe diferentes pessoas vindas de todos os continentes. Rede social é conosco mesmo! Cultura, cores, pessoas e expressões linguísticas. E, na maioria das escolas públicas do país o espanhol é uma língua opcional juntamente com o inglês oferecida aos alunos e alunas. Bueno, mas a questão não é essa embora perpasse por essa observação. Como é importante falarmos, nos comunicarmos com outros saberes, outras formas de dizer o que gostaríamos de dizer! Ademais, a questão é que, neste ano, livros e autores espanhóis tem impactado a minha percepção da escrita, interpretação, literatura e leitura. Dois autores: Com outros liv...