O triângulo amoroso Tarde de inverno. Estávamos em frente da casa amarela. Esquentava os pés no pouco de sol que atravessava a rua. Havia tirado os sapatos e com as meias a mostra lagarteava. David foi se achegando. Tinha os óculos pendurando no pescoço. Chegou para contar um conto passado, visto por ele. Ele tinha gosto em contar dos assobios dos outros. Enfatizou que esse conto era de um triangulo amoroso composto por Joel, Maria Eulália e Emanuehl. Um triângulo amoroso vivido em Buenos Aires. Trazia embaixo do braço um livro de Jorge Luís Borges. Consta em sua árvore genealógica que o seu bisavô paterno atravessou o sudeste do país transportando em lombos de mulas café e charque. De tanto ouvir histórias, vagava pelo mundo dos personagens. Naquele dia caminhou de um lado ao outro interrompendo os raios de sol que esquentavam os meus pés. Falou de Maria Eulália, uma mulher elegante como um jardim Francês. Que a conhecia desde criança. Falou das in...
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O guri era bonito. Dizia ter um nome estranho: Kafka. Tinha os olhos castanhos. Foi o que Eneida me disse folheando um exemplar do Castelo. No seu tornozelo a tatuagem: metamorfose. Não é possível saber ao certo o que se passa na cabeça de uma pessoa que vive na rua quando começa uma conversa fazendo menção a Kafka. Presumi porquê cargas d’água alguém, no início da manhã resolveu escolher um Cristo, no caso, eu, para torturar. Essa daí, toda semana, resolve passar aqui, inventando histórias. Tudo bem, disse para mim mesmo, vamos em frente. Ela falava que era uma pessoa sem graça. Kafka tinha graça. Perturbadora. Silenciosa graça sem graça. Uma graça literária. Eu não queria ouvir falar a respeito de Kafka. Segunda-feira! Já bastava o trabalho. Mas continuava ouvindo Eneida falar sobre o Castelo, num palavreado de rua. Ela morava num daqueles cinturões de favelas do norte da cidade. Se não tinha atenção logo dizia: Erga os olhos deste conto e veja o que...
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Um acidente Na hora em que Ivan freou o seu D20 nenhum outro carro passava na rua do prédio. Nenhum motociclista tirava um fio de um pedestre na beira da calçada. Nenhum aposentado passeava por ali com seu cãozinho de estimação. Quase todas as janelas dos apartamentos estavam fechadas. As poucas árvores que restaram da especulação imobiliária faziam parte da paisagem seca. E não havia pássaro que se arriscasse a começar um ninho naqueles dias feios. O vento sibilava como num filme de terror. Ivan enchia a cara de cerveja e afundava o pé no acelerador do carro. Ouvia uma voz a lhe perguntar: Para onde é que eu vou? Marina, a vizinha do mesmo prédio, chegava de uma viagem. Surpreendeu-se com a freada do carro em cima dela. Dias atrás ela havia descoberto a traição dele com a morena do prédio ao lado. A mulher ‘oficial’, digamos assim, nem imaginava que Ivan fazia, por fora, as dele. E essa traição amedrontava aquele cara de pau, o seu vizinho. “Era só...
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O tempo da história Mara Paulina Arruda Quem são os sujeitos históricos de 2022 ? Hannah Arendt,1975, diz que “ Tudo que os homens fazem, sabem ou experimentam só tem sentido na medida em que pode ser discutido” Refletir sobre o que estamos fazendo e como estamos enfrentando as mudanças ocorridas no mundo pós-pandemia é um exercício salutar. Esse exercício most...
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A Ponte Para onde ela me transporta? É uma divisão, bem sei Uma incógnita A ponte não é um trapiche Metade de um caminho Uma parte A ponte leva A ponte traz Não é um moinho com seus ventos quixotescos Nem uma batalha no mar Não é a Pont du Gard Aqueduto, herança dos romanos Na sua concreta estrutura Cimento, ferro, armadura Não é a ponte de Munch Angustiada, deprimente, assustada Muito menos a ponte-fonte de Monet -Jardins ponteados de cor- Quisera fosse a ponte construída por Niemeyer Curvas inspiradas Ou a ponte Kuntai de Yamaguchi R odeada por cerejeiras Um casulo guardando o momento de metamorfosear Uma ponte submersa Mareada por peixes, conchas e estrelas do mar Ponte de formigas Ou de elefantes Essa ponte eletrocardiograma de mim Estalactites Sítios arqueológicos Documentos Índios fazem pontes Com árvores caída...
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Dulcinéia brasileira I -Ó princesa que fazes perdida no meio deste rio? Pés descalços, coração, refletida na leitura Dulcinéia da Silva, o seu nome de batismo “Posso ler a sua mão?” Benzimentos, Benzedeira, Benzer Ogum, Oxalá, Iemanjá, Orixás Aguares Irmã de Macunaíma passado-presente-futuro Índia. Negra. Guerreira. Brasileira Suas lágrimas desembocam na cachoeira destes verdes campos Campos vertentes que desembocam no Riovida Santa Luzia passou por aqui Com seu cavalinho comendo capim Arqueira Santa Bárbara Lanças de papel Palavras são flechas flechas flechas Girassol giramundo giraavida girassol “O gira, deixa a gira girar” Riscou na mão o ponto Com o carvão daquela árvore -Derrubada, cortada, resto de chamas- II Pêssegos, maçãs, peras Do pé ao pote Feitas em manhãs orvalhadas Do leite...
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Crianças na guerra Stop War! O filme italiano A Vida é Bela do diretor Robert Benigni, 1998, mostra a crueldade que uma criança é exposta durante um tempo de guerra, na Itália. Mesmo tendo o pai, o judeu Guido, fazendo de tudo para que o menino Giosué não perceba a cruel e real história que vive a criança vive num tempo de horror. Anne Frank -1929-1945- foi uma adolescente alemã, de origem judaica, vítima do Holocausto ficou conhecida no mundo, muitos anos depois, por ter escrito um diário onde descreve as experiências de guerra enquanto vivia escondida em cômodos ocultos de uma empresa, durante a ocupação alemã. Desde que o mundo inventou a ideia de poder de uma região sobre a outra que a guerra afeta principalmente as mulheres e as crianças. São conhecidas histórias, no mundo todo, de situações de crianças que não desejavam viver sobre tiros e bombas mas viver seguros entre brinquedos e escola. Vários documentários, livros e filmes mostram...